(Antes de começar, Ouça Elis bebendo café com leite)

E daí eu percebi que estava na hora de você voltar pra casa.

Foi num dia em que eu estava atrasada e ainda não tinha tomado café, eu pensei em gritar “Pai, já fez meu café com leite?” daquele jeito mesmo, daquela época em que eu estava quase casada e a gente ainda morava junto e você fazia café com leite todos os dias antes de eu ir trabalhar. Acho que foi neste dia em que eu percebi que você não morava mais aqui.

Tudo bem, eu já sabia disso, mas o que eu enxerguei enquanto eu mesma preparava o meu café é que eu tinha feito as suas malas, encaixotado as suas coisas, chamado o caminhão de mudança da vida e dito “A partir de hoje, sua casa não é mais aqui dentro. E isso sem data de volta”. Mas existe uma coisa chamada daquilo que se tem saudades que faz com que a gente por vezes perceba que dentro da gente alguns quartos permanecem vazios demais e que tá na hora  de chamar quem deveria viver neles de volta pra casa.

Eu abri a porta pra você entrar com aquela caneca verde trazendo meu café com leite, pra gente discutir o jogo do Palmeiras, pra eu te dizer que eu ando com meu coração partido e que eu pensei sim em ligar e dizer “partiram meu coração”. E que você entrou, não só nesta história, mas pela porta de casa dia destes me surpreendendo quando disse que eu havia chamado e você estava lá.

Fique o tempo que você precisar, você me disse dias atrás quando me mudei pro seu quarto vivendo o luto da minha mãe, das minhas partidas, talvez da nossa ausência. E eu também morei lá. A gente tá mudando pra mesma casa.

Eu escolhi escrever ouvindo a Elis, a primeira música que você me ensinou a cantar. Eu escolhi escrever para você, simples assim. Agora você já sabe, da próxima vez em que eu ouvir a chave girando na porta, eu vou dizer “Pai, faz um café com leite pra mim?”

Para o meu pai, ele não sabe disso.

 

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