Aí a professora disse:

-Thais, por que você não fez a lição de casa?

E a Thais respondeu:

-Porque acho que não entendi o que a professora disse!

Não, isso não é uma piada que só sagitariano ri. Assim mesmo, com aquele olhão arregalado, num francês mais do que fofo, ela falou isso normalmente. E eu olhei gargalhando para aquela garota e pensei “Quero ser amiga dela”!

Pensei isso no auge dos meus 30 anos e me enchi de alegria porque eu achei uma pessoa neste mundo em que todo mundo anda meio perdido. Porque no fundo, viver é um enorme galpão de Achados e Perdidos, de gente que vai, outros que ficam, uma bagunça de todo mundo se trombando sem sentir a pele do outro, se olhando sem se ver, de passagens vazias e, de tão vazias, a gente acaba buscando preencher de gente de verdade estas relações tão de mentira.

Mas mais do que buscar, achar alguém é algo muito precioso. Porque achar demanda sensibilidade, sincronicidade do tempo e surpresa. Tem gente demais no mundo, eu sei. Mas nem todas as pessoas nos permitem colecionar momentos. Não é qualquer um que está disposto a se achar e a se perder.

Eu achei a Thais. Ela sabe que este texto está sendo feito, mas talvez não saiba que foi achada. E eu a encontrei acho que enquanto ela colocava pra fora com tanta vivacidade tudo que sentia diante de mim, mesmo a gente se conhecendo há 15 dias. Gosto dela por isso, a gente joga fora estas coisas de contabilizar o tempo pra sentir tudo na mesma hora. Eu achei a Thais na sua incrível façanha de contar para o cônsul da França que depois de cada primeiro encontro, ela fazia o mapa astral do cara. E o francês bobo com tanta achabilidade numa mesma pessoa. Quem, a não ser a minha Thais, falaria tanta verdade?

Thais não só não entende algumas palavras que nossa professora de francês diz, mas também algumas perdas no meio do caminho. Quando se procura algumas coisas ou alguém ou mesmo a gente, muitas vezes entramos em uma sala repleta de esquecimentos. E cabe a nós encontramos aquilo que ainda faz sentido.

Ela anda procurando afeto, desculpas, respostas, sentido… na vida, no mapa astral, nos signos, nos gestos, nas palavras que não vem da pessoa esperada, nos telefonemas que não chegam do outro lado do oceano. E eu confesso que pensei em escrever no lugar dela esta carta perdida em alguma prateleira que a habita. Mas aí eu percebi que isso é algo que eu não poderia fazer em seu lugar. Achar a Thais é deixar de falar por ela para falar para ela.

Na vida, nem sempre a gente vai achar alguém em que deveríamos dar carona  até o metrô Clínicas, mas a conversa é tão boa que dirigimos até o Alto do Ipiranga. Nestas prateleiras em que por vezes achamos guarda-chuvas, discos da Maria Creuza com dedicatória de 73, blusa azul de capuz nem sempre vamos encontrar alguém tão divertida com uma vida tão cheia de história e superação. Nas gavetas que não trancamos mais, nem sempre estarão luvas e imãs de geladeira emprestados pra se sentir olhada.

E neste Achados e perdidos da vida, eu escrevo pra te devolver,  Thais. Eu rascunho palavras guardadas aqui dentro para que você possa se achar.

Para a Thais, como todo afeto do mundo e ouvindo a música do Rubel.

 

 

 

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