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Ilustração: Édipo Régis

“Então vai lá e erra de novo!”

Não só sir Davos disse isso pro Jon Snow quando ele ainda estava indeciso sobre o castelo negro, mas Felipe também me consolou no dia em que eu entreguei uma blusa azul. E quando o questionei dizendo “Ei, isso é Game of Thrones!”, ele prontamente respondeu “Sim, mas isso também é a vida, ou não é?”. Desde então, todas as segundas antes da minha aula de francês bebo um excelente café com leite feito por ele e discutimos mais um episódio da série.

Felipe, o rapaz que faz o melhor misto de leite e café que eu tomo fora da minha casa, tinha razão. Eu fui lá e errei de novo. Quando se entrega uma blusa azul emprestada não só devolvemos uma gentileza, mas nos livramos de tudo o que poderia ter sido e não foi. Entregar o agasalho não é só uma nova de tentativa de se pedir desculpas, mas um jeito de dizer “olha, eu vou devolver a blusa porque apesar de querer muito ficar com ela e transformá-la na minha nova blusa de dormir porque ela tem potencial e afeto pra isso, eu não queria só a blusa. Eu queria que você viesse junto com ela.”

Há momentos na vida, ou até no próprio seriado, em que a gente tem que partir. Ou pra Westeros, ou pra Winterfell ou mesmo pra Arthur de Azevedo. E simplesmente entender que certas coisas, assim como os dragões da Daenerys, não são controláveis, não estão nas nossas mãos. Um dragão só será um dragão se ele for livre. Caio Fernando Abreu jurava que morava junto com um dragão, este ser incontrolável, que escapa pelos nossos dedos, poros, certezas, pela vida.

A gente não controla os sentimentos, assim como não controlamos os dragões. Fiquei imaginando como me sinto hoje, em vista da difícil decisão que tomei nesta semana. Tem horas em que eu sou Khaleesi, a não queimada, a pessoa que devora corações de cavalos. Em outras eu respiro e sou Sansa calculando a melhor estratégia de sair viva de tudo isso e recuperar o norte da minha vida. Talvez Brienne, lutando com honra pra cumprir tudo que eu vim fazer nesta história. Mas a decisão já foi tomada.

Chamei o dragão que mora comigo, dei um abraço demorado nele enquanto tomava uma caneca de café com leite e chorando me despedi. Decidi que estava na hora de ir embora. De lembrar que eu tenho um rosto, uma habilidade incrível com espadas na vida, e que mais importante do que perder a identidade para se viver num mundo sem face, é lembrar de quem somos, com orgulho, na contramão daquilo que é fácil e não verdadeiro.

A garota tem um nome. Eu sou Arya Stark, de Winterfell, e eu vou pra casa.

 

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