Bote pra tocar e dance!

Ontem ouvi a música do Zorba, o grego. Definitivamente, esta é uma música feliz. E eu achei, sinceramente, depois de tantos textos falando sobre tantos perdidos na nossa vida e neste blog, que estava na hora de começar a achar certas coisas. Achei um braço se movimentando, olhos que começaram a se fechar, um sorriso que foi abrindo e do nada, eu estava dançando.

Há um movimento do universo quando a gente dança, mesmo sozinhos. A gente ativa alguma coisa no cosmos e o ar já não fica mais o mesmo, os órgãos são massageados, as lembranças vão encontrado o lugar dentro da gente e a cada passo pra direita é um tchau para o passado, pra esquerda um Oi pro futuro. E o agora é de acordo com o ritmo que a gente escolher.

A gente pode dançar com uma taça de vinho na mão também, com alguns panos brancos pra fazer movimento. A gente pode dançar descalço e com batom vermelho. E a cada vez que nossa mão girar, convidamos alguém em qualquer lugar deste ou do outro mundo para ser feliz também.

Ah, mas tem uma coisa divina chamada pratos. O gregos quebram todos. Jogam no chão e gritam “EEEEPA”. Por que não? Escolher aquele prato que um dia serviu a macarronada de domingo, o outro que acolheu um gateau au chocolat, este que amparou comidas saboreadas com as mãos. Pode até ter pato na receita que tá tudo bem. E vamos, quebrando todos, um a um e sorrindo e gritando. Quebrar pratos é mais terapêutico do que pensamos.

Nesta dança,  reencontrei uma pessoa. Ela reapareceu depois de anos e eu confesso que estava com muitas saudades. O mesmo lenço vermelho de moedinhas amarrado na cabeça, pés descalços, argolas douradas enormes nas orelhas e um sorriso que me dizia “Por que é que a gente nunca mais se viu?”

Malucinda me conheceu quando eu tinha seis anos. E foi um encontro lindo. Ela estava em cima de uma cadeira rosa de couro da mesa de jantar da minha avó quando olhou pra mim e disse “Sobe você também, vem dançar comigo”. Ao contrário do que todos pensam, não foi no ballet, nem no Jazz, nem na dança hebraica, nem na Flamenca que aprendi a dançar. Eu dancei pela primeira vez de verdade com ela, subindo nas cadeiras e mesas e girando. Lembro que ela batia palmas e sempre aparecia pra brincar comigo.

Depois de um tempo eu cresci e ela foi embora. Acho que por falta de tempo na minha agenda adulta, por simplesmente alguma falta de fé, por não estarmos na mesma sintonia. Reencontrar a Malucinda depois de mais 20 anos em meio à uma dança, foi me achar também. A gente se achou de novo. Eu sei que ela não pode ficar comigo, que existem tantas crianças que precisam aprender a dançar de verdade em cima das mesas, mas o que me encheu de esperança hoje foi saber que nesta busca em ser feliz, até ela voltou pra me dizer “Vai lá, garota! Dança!”

Disseram pra mim uma vez que ela não existia. Porque as pessoas tem esta mania de só acreditarem naquilo que veem. E por não poderem vê-la elas simplesmente não a enxergavam. Mas fazer o quê se ela só queria aparecer pra mim e dançar comigo? Pra mim, ela foi e sempre será real. Por isso, ela vive hoje nesta história.

Para Malucinda, a melhor amiga imaginária que uma criança de 30 anos poderia ter.

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