Ela me ensinou a amar as palavras.

Uma palavra só faz sentido quando a gente sabe aquilo que ela carrega. Nem dicionários, nem verbetes. Pode ser em outra língua, usada com os dedos. Uma palavra só existe quando a gente a pronuncia ou quando a escreve.

Dizem que Deus criou o mundo através da palavra, que existem palavras chaves para desvendar segredos, cruzadinhas… Nem mais uma palavra é também extremamente importante quando a gente não deseja ouvir ou prever o futuro.

Comecei a amar as palavras através dos livros que traziam pequenos poemas, grandes histórias de vida, gente inventada, gente que existiu de verdade. Amei primeiro a palavra dos outros para poder descobrir a minha. E foi assim, num dia em que alguém como eu não trocou as palavras esperadas que eu a reencontrei.

Atravessamos a rua, nos abraçamos, chorei, chorei… por reencontrá-la e por olhar pra ela no exato momento em que eu não sabia o que falar pra ele que estava bem atrás de mim. Que palavra escolher para descrever um encontro com a minha guardiã de letras num momento em que eu não sabia o que falar?

Uma vez, proferi em palavras o desejo de quando eu estivesse exatamente naquele lugar, eu gostaria de alguém pra segurar a minha mão, assim como faço com meus alunos quando eles não encontram palavras para expressarem aquilo que sentem. E foi deste jeito, em letras jogadas no universo, que a Simone reapareceu naquele sábado de frio interminável.

Simone, minha professora de português da adolescência, ela que me fazia viajar pelo mundo de letras, acentos, exclamações e vidas, bem ali, segurando a minha mão, me abraçando e fazendo com que através de tudo isso e da nossa história ainda não contada, eu achasse nas palavras o silêncio da calma.

Um dia, ela olhou pra mim e disse “Sua letra é você. Não a mude”. E com estas palavras, na contramão do mundo, ela me fez perceber que meu caminho era ser gauche na vida, na letra considerada feia, na imensidão de palavras que carrego comigo. Minha querida Simone que me descobriu cantando palavras, com sentimentos que eu encontrava na forma com que tantos contadores de histórias que ela me apresentava desvendavam o mundo.

Para ela, as minhas mais doces palavras, escritas com a minha letra gauche e um coração transbordando de Achados neste mundo de letras perdidas.

Para Simone Jorge, ela não sabe disso.

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