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-Fica tranquila, este avião não vai cair.

-Mas como você sabe, moça?

-Eu tô nele. E quando eu tinha 12 anos, sofri um acidente de avião, sobrevivi e quer saber de uma coisa? Isso não acontece duas vezes com uma mesma pessoa. Então, eu sou seu amuleto.

– Impressionante você contar esta história pra ela. Sou ex-piloto, contei toda uma argumentação técnica e não a convenci. Acho que agora ela voará mais tranquila. Prazer, eu sou o Fernando.

E foi assim, num voo que havia sido cancelado de  Johanesburgo para o Brasil que virei o amuleto da garota com medo de voar.

Voar realmente não é algo fácil. Demanda muito mais flexibilidade, aerodinâmica, pulmões e coragem do que a gente imagina. Não basta sermos livres se não soubermos o que fazer com esta liberdade, interpretarmos os ventos, acreditarmos num voo sem garantias, mesmo que ele tenha um destino.

Naquelas longas 10 horas e três garrafas de vinho, Fernando me ensinou a olhar as asas, os flaps, a saída de combustível. Me disse que no caso do meu acidente, eu tinha 4 chances vindas de quatro motores, o avião mais seguro do mundo, mas isso quase que não me impediu de morrer. Que coisa, pensei comigo, era quase impossível morrer, mas quase que viver se tornou imprevisível.

Voar é uma metáfora linda da vida. A gente encontra as nossas asas em terra firme, ainda que diante da dor, do amor, daquela rotina que por vezes nos torna um pouso forçado do destino. Não é preciso ter um céu, a pista de decolagem é feita das nossas escolhas. O tempo que levaremos é fruto da imprevisibilidade de viver. Há quem faça voo de algumas horas, outros preferem escalas, mas existem os que atravessam continente e precisam voltar para entender que só este tempo e este voo foram capazes de curar algumas feridas.

Voamos por aquelas horas todas só pelo oceano, sem terra firme alguma. Fernando disse que estávamos a 34 mil pés, não faço ideia do que isso possa dizer, mas me pareceu algo sensacional visto o brilho de seus olhos. E quando nos cansamos de falar das coisas de cima, voltamos para o chão, para nossos trabalhos, famílias, paixões. Por alguns minutos ficamos por ali, esquecendo nossas asas, usando nossos pés.

E foi neste momento, que Fernando se tornou meu amuleto naquele voo. Quando falávamos de uma coisa bonita chamada Amor que surge pra gente em diferentes formas de asas, turbinas e com um ou inúmeros motores:

-E aí, falei pra ela que estava tudo bem se não desse certo. Ela tinha tido um filho com a pessoa que ela gostou de verdade, ela fez um filho com Amor. Você sabe quanta gente consegue isso na vida? Não importa o quanto durou, toda vez que ela olhar para aquela criança, ela vai se lembrar que amou de verdade. E isso, é para poucos.

Perdi as contas de quantos textos neste pouco mais de mês e meio foram escritos. Por um momento, achei que eles eram a única forma de colocar pra fora tudo aquilo que habitava aqui dentro, todas as coisas que me impediam de voar. Mas não. Quando a gente faz um texto com todo amor que cabe na gente significa voar muito alto. Significa que a gente amou de verdade, não importa o quanto tenha durado.

Todas as vezes em que eu olhar estas palavras, vou me lembrar que eu gostei de verdade. E que isso, é pra poucos. Não importa o quanto durou, nasceu um livro de tudo isso.

– Tchau, Nathalia. Que você seja muito feliz, é o que te desejo. Voe Muito!

Para o Fernando que me ensinou que viver acontece muitas vezes durante a vida.

 

 

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