Outro dia sentamos juntas e eu disse “Olha só, quando eu morrer você não vai planejar estas coisas chatas de todo mundo em velório, de preto e chorando. Eu quero que você organize uma festa, sirva uma boa cachaça, café com leite no final para os convidados e coloque pra tocar minhas playlists do Spotify. Eu quero todo mundo rindo e contando uma monte de histórias que viveu comigo. Aí eu vou embora em paz, no meio de uma festa!”

Por estes dias, li que quando nos emocionamos com um filme ou qualquer tipo de história contada é um grande sinal de empatia. Significa que choramos ou rimos ou amamos como aquela personagem porque nos colocamos no lugar dela. Aconteceu isso comigo.

No novo filme do Darín ele está morrendo e seu melhor amigo vem do Canadá passar seus últimos dias com ele em Madrí. Acho que eu tive um colapso empático presenciando cada momento em que eles passaram juntos. E foi quando eu percebi, ali entre aquelas duas pessoas, que o que me emocionava era que eu sabia exatamente o que eles sentiam, não que eu esteja morrendo ( eu sou o inconsequente do Julían, é claro), mas porque se eu estivesse naquela situação, eu já tenho o meu Tomáz.

Eu me lembro que uma vez nos levaram pra uma feira de profissões. A gente tinha 16 anos e a Basf fez um desafio de lógica. Quatro meninos contra ela. Calmamente ela olhou suas possibilidades e deu a resposta. Estava correta, ganhou o prêmio em forma de caneta e eu morri de orgulho. Mas não é só por isso, não. É por tudo.

É porque depois de três anos eu acordei de um luto e a primeira pessoa que vi foi ela. E aí me dei conta de que esteve o tempo todo ali, do meu lado, sem me questionar, sem brigar comigo porque eu tinha que dar um jeito em tudo e sair daquela muralha. Era como se ela velasse o meu sono, jantasse em silêncio comigo, me acompanhasse pelas jornadas toda me cuidando com o olhar, com o filme que a gente escolheu ver juntas, com o restaurante que a gente decidiu visitar juntas, com a viagem que a gente planejou juntas.

Respeitar o tempo de alguém é de uma generosidade sem tamanho, é isso que ela me ensina todos os dias, com seus números, com sua calma, com o seu oposto de mim que me multiplica, que nos multiplica. Não tem companhia melhor pra se comer um docinho do que a dela. E eu acho que eu nunca verbalizei o quanto eu sou grata por ela ter cuidado de mim e ter estado ao meu lado, não só nestes 20 anos, mas nesta vida que eu escolhi pra viver.

Ela me fez Maria Antonieta para que eu fizesse 28 anos, ela me ouviu dizer umas 80 vezes a mesma história, ela arrumou as malas e foi viajar comigo para encontrar búfalos, ela é a pessoa que eu escolheria pra cuidar do meu cachorro, pra pegar uma avião pra Holanda e me ajudar a me despedir.

Mas eu voltei pra vida e meu convite hoje não é de despedida, é de um contrato vitalício não assinado em que eu prometo sempre dividir meu brigadeiro com ela, planejar viagens em que a gente vai colocar outras cadeiras para segurar a porta, ouvir bandas de forró que a gente ouvia com 15 anos sem se sentir velhas. É tempo de festa, do Brasil ganhar no vôlei, de entrar em inúmeras ciladas e sempre sair rindo de todas elas.

Para Marcela Ortega, eu espero que ela saiba de tudo isso.

 

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