Eu nunca tinha visto pinguins de verdade, mas naquele dia, eu avistei pinguins reais e livres. É tão bonito ver a liberdade acontecendo. Eu cheguei à Robben Island, a prisão em que Nelson Mandela viveu por anos, de barco, ventava muito e as ondas eram gigantescas. Me recusei a ficar sentada e, me apoiando aonde conseguia, fui em pé, aprendendo a deixar meu corpo sincronizar com tudo aquilo. Há um ano atrás, eu não conseguia nem mesmo olhar pela janela de um trem que eu perdia meu equilíbrio, mas agora era diferente, eu me sentia mais livre.

No caminho até a ilha, eu já tinha uma pulseira escrito Mandela no meu pulso enquanto eu mesma preparava uma outra pra ser entregue à Fundação de Madiba, para ser de outra pessoa, pra entregar algo feito por mim. Na África do Sul, as pessoas compartilham histórias.

Assim que aportamos, conheci Sipho e me apaixonei por ele. Aquele senhor de sorriso fácil tinha algo que me encantou porque eu me identifiquei. Assim como eu, ele conta suas histórias tristes rindo delas. Às vezes, até misturamos o choro com a gargalhada, mas só nós sabemos que esta é a forma mais honesta e visceral que encontramos pra saber lidar com certos acontecimentos da vida.

Sipho é um ex-prisioneiro da Robben Island e chegou lá com 22 anos. Dividiu o espaço, o tempo, a solidão e o medo com Mandela e tantos outros que se negavam a viver numa África dividida. Ao que me parece neste mundo, lutar pra ser livre é uma infração gravíssima e digna de punição. No lugar dos livros, marretas, no lugar de preconceito, quebravam-se pedras.

Naquele passeio de uma hora e meia em que Sipho foi meu guia, eu transitei entre celas e mares, entre a liberdade e a tristeza. “Ninguém nasce Mandela”, ele me disse, “Não importa a idade que você tenha, o tempo que tenha passado aqui, a juventude perdida, a velhice chegando, quando você ouve o barulho da chave girar e percebe que mais uma sessão de tortura está por vir, você se torna um menino e tudo o que este menino quer é voltar pra casa.”

Caminhei por aquele lugar silencioso, mas sem pesar, um lugar que me fez pensar muito e aí eu cheguei na cela do Mandela. Aquele espaço minúsculo pra uma pessoa de 1.57 como eu e fiquei imaginando para um homem do tamanho de Madiba. E olhei por aquela janela e por entre aquelas grades que pra um olhar realista davam direto ao campo de trabalho forçado, mas me lembrei de Sipho dizendo sobre o mundo não ser Mandela.

Me coloquei a imaginar que pessoa é esta que viveu ali por 19 anos, sofrendo toda e qualquer prisão física, torturas, humilhações e quando se liberta daquele lugar consegue perdoar a todos, ao tempo, às incertezas. Com certeza  esta pessoa chamada Nelson devia olhar aquele lugar seco e imaginar as ondas, aquelas que me trouxeram até aqui, ou se lembrar dos pinguins livres que dividiam com ela aquele mapa.

Me despedi de Sipho, mas eu jamais vou conseguir me despedir de Mandela. Quando se tornou presidente, declarou que a Robben Island era linda e livre e que, por isso, se tornaria um museu para que nunca mais a humanidade fosse sua prisioneira. Se podemos aprender a odiar, podemos aprender a Amar. Estas palavras ecoam dentro de mim de uma forma tão genuína que jamais se apagarão da minha vida e das minhas histórias.

Na África do Sul, quando se cumprimenta qualquer pessoa, você para, olha em seus olhos e pergunta calmamente “Olá, Tudo bem? Como você está hoje?”. E as pessoas esperam pela sua resposta e também por sua pergunta. Olhar o outro e se importar com ele é um costume.

Voltei pra casa com um pinguim de pelúcia da Robben Island, com um livro sobre Mandela, com uma história narrada por Sipho e com um respeito pela Liberdade que prometi a mim mesma que vou honrá-lo até quando eu não puder mais contar nenhuma história. Voltei olhando nos olhos e perguntando “Como você está hoje?”.

Obrigada, Sipho.

Para Nelson Madiba Mandela que semeou em mim o desejo mais puro por ser livre e por me importar com os outros, independente da vista que a minha janela possa ter.

Anúncios