-Seus sapatos são lindos!

-Obrigada.

E assim sorri pra Carolina quando ela elogiou meus sapatos, na primeira vez em que nos encontramos. Na verdade este não é seu nome, mas pra proteger sua identidade – e como também adoro dar nome às pessoas- pra mim é o nome perfeito. Ela se parece  com a Carolina Ferraz.

Depois deste dia, Carolina se calou. Todas as vezes em que nos encontramos no local em que fazemos terapia, ela olha para o chão, desvia o olhar. Tudo bem, eu a entendo. No fundo, não sabemos como é a etiqueta em uma clínica em que vamos para nos encontrarmos com psicólogos e desvendarmos nossas vidas.

Hoje, eu escrevo para a Carolina, mas também para quem quiser ler este texto. E dizer que fazer terapia não é fácil e que, por vezes, ainda temos vergonha em revelarmos isso para algumas pessoas. Eu estava saindo com um garoto. Ele adorava pedalar e ficou animado quando descobriu que eu não trabalhava às segundas. Vamos pedalar segunda? Não. Este diálogo aconteceu três vezes até que revelei a ele meu compromisso às segundas de tarde. E quando contei que fazia terapia, tentando me deixar confortável, ele disse “Tudo bem, todo mundo é meio louco mesmo!”.

Todo mundo é meio Pat Solatano tentando encontrar um lado bom da vida. Se revoltando com o terapeuta, por vezes descobrindo nele um amigo. Tentando ser positivo, dançando com a Tiffanny do Tommy. E até lutando para que Não, desta vez não, que ela não entre na sua vida. Porque um novo amor é sempre ameaçador quando os outros foram cruéis com a gente.

Há dias em que a gente para em frente a clínica e não quer entrar. Outros simplesmente entramos e tentamos convencer a nós mesmos que tudo está bem. Depois, ouvimos do terapeuta coisas profundas que nos reviram e tudo que fazemos é voltar pra casa chorando, deitar no sofá em posição fetal e pensar sobre o que realmente fazer da vida. Mas quando decidimos que de verdade estamos dispostos a nos conhecer e mudar alguma coisa que não anda bem,parece que aceitamos a nós mesmos e somos mais abertos.

“Mas por quê fazer terapia? Você é tão feliz, tão bonita tão inteligente!”

“Você realmente acha que precisa disso? Olha que vida boa você tem!”

No jokenpô da terapia, eu sempre venço aos olhos dos outros. Minha estratégia para não dar satisfação é muito eficaz: a grande tragédia da minha vida. Quando sou colocada ao lado de outras pessoas que também acharam necessário fazer terapia, meu motivo nunca é questionado e sempre aceito. Ao invés de pedra, papel e tesoura, “Depressão”, “Tentativa de suicídio”e “Perdi minha mãe com câncer”. Ninguém questiona o filho órfão de uma mãe. Porque para muitos, depressão é MiMiMi, tentativas suicidas uma forma de chamar atenção, mas perder a mãe é um sentimento que ninguém quer ter e  todos perdem o chão quando pensam nisso.

Ainda não entendi muito bem a etiqueta numa clínica de terapia. Porque quando encontro várias vezes com uma mesma pessoa em um lugar que se torna rotina, automaticamente me sinto íntima para cumprimentá-la. Tem sido assim com o Pedro que um dia me viu descendo as escadas chorando e disse “Calma, tudo vai ficar bem” antes de entrar para sua sala de terapia, com o Lúcio que chega de táxi, fala pouco e adora tomar café antes de entrar e contar sua vida para sua terapeuta. Com a garota que parece a Adele e que, em seu primeiro dia ali, me fez chorar com uma das cenas mais bonitas de amor que já vi.

A Adele chegou com um garoto que parecia seu companheiro. Quando chamaram seu nome, ele sério beijou sua testa, desejou-lhe boa sorte e a acompanhou com o olhar enquanto ela subia cada degrau. Quando já não podíamos mais vê-la, ele abaixou a cabeça e começou a chorar, copiosamente, como se sentisse toda dor que ela estava sentindo. Isso é tão bonito quanto chegar em casa depois de um dia devastador de plantão e ter alguém te esperando com o jantar pronto. E este foi um dos jantares mais bonitos e cheio de amor que eu já tive.

Dia destes, depois de ver o Lúcio tomando café, perguntei se eu também poderia. Já estava me sentindo mais à vontade comigo mesma e com a minha terapeuta que, por vezes acho que me esculacha demais, mas sei que preciso destes terremotos todos. Helena sempre me ofereceu café mas eu negava. O que significa tomar café com sua psicóloga? Intimidade demais, né? Principalmente se ela me revira muito e, por vezes, aquilo dói.

-Posso tomar um café?

-Claro, pode ir à cozinha. Está na térmica.

Não há nada mais íntimo do que estar na cozinha de alguém e abrir sua térmica para tomar café. Eu gelei com tanta intimidade num lugar em que a gente exposto tenta se proteger. Mas eu fui. Fui até a cozinha, abri a térmica, mas só tomei o primeiro gole diante da Helena. Agora eu já conseguia beber café com ela.

Na última semana, desci e percebi que Carolina e eu temos uma bolsa igual. Nossos estilos são bastante iguais. Pensei em falar “Olha, eu tenho uma bolsa igual”, mas ela estava concentrada demais tentando se esconder dentro dela mesma na recepção. E eu, como não sei ainda como me portar naquele lugar, fui educada e não atrapalhei seu silêncio.

Gregório Duvivier uma vez disse “Escrevendo perdi a chance de ficar calado”. Desta vez, me calei para poder escrever para ela, para a Carolina. Assim como o Paulo, gostaria de dizer “Tudo vai ficar bem.” Ainda não sei se vou deixar na recepção esta carta para ela, mas deixo aqui para vocês. Por vezes, tudo o que precisamos é de um olhar compreensivo, do silêncio, de alguém nos abraçando e segurando na nossa mão quando a sessão de terapia daquele dia nos tocou demais. Um café, quem sabe? Um jantar feito com o melhor tempero do mundo, o amor.

Para a Carolina, quando ela despertar de dentro dela, e descobrir que tudo vai ficar bem.

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