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Eu tenho um aluno que em alguns momentos da sua vida se agasalha. Blusas, cachecóis, manga comprida. Pode estar a temperatura que for, se ele se sentir desconfortável, se aquece.

Quando sua mãe me procurou pra me contar esta história, me pedindo para que nunca, em hipótese alguma, pedisse para que ele se desagalhasse, pensei muito. Para ela, ele se protege de coisas que o ferem, que o desestabiliza, é o seu escudo. Dias depois desta conversa, cheguei a uma conclusão: Ele sabe se acolher.

Damos colo, beijos, carinho, embrulhamos pessoas tristes como sushi, fazemos café… com leite. A gente sabe fazer isso com todo mundo, menos com a gente mesmo.

Qual foi a última vez em que nos olhamos no espelho e dissemos pra nós mesmos “Tudo bem, você errou? Errou. Mas todo mundo erra!”? ou “Fica calma, eu tô aqui e isso não é o fim do mundo!”. ou “Nada é pra sempre, mas não foi incrível este tempo que durou?”

OU

Tudo bem não saber o que fazer. A gente não vai ter resposta para tudo e nem sempre a decisão é nossa. Fizemos nosso melhor, mas não era a hora. Espera, acredita ou vai embora. Tranca a porta, você não acha que está frio lá fora? Deixa a porta aberta, sente este calor que a Primavera traz com suas cores. Tem certeza? Mesmo que nada der certo, estou do seu lado e orgulhosa de você.

Acolher, na minha concepção vem daquilo que colhemos. Mais do que uma flor, mais do que a hortelã que eu amo e que pego na minha horta. A… colher vem daquilo que conseguimos extrair de nós mesmo, seja o suco bom, sejam as partes que vamos deixar pra nossa composteira de reinvenção. Colher aquilo que nos alimenta a alma, o que vamos usar nas receitas de sobrevivência ou simplesmente para colocarmos no vaso com água e alegramos nossa casa.

A gente tem perfume, beleza, gosto e sustância. Temos potencial pra olharmos pra nós mesmos e termos a coragem de admitirmos que não tem mais jeito ou nós podemos dar um jeito.

Esta semana, durante meu período pré-menstrual de dores e emoções à flor da pele, decidi começar a me acolher. E descobri que não preciso de muitas roupas, apenas um café com leite numa bonita caneca, um chocolate que abraça a alma e uma bela olhada no espelho. Não faltou nem o abraço.

” Nada vai permanecer
No estado em que está

Eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar

Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar

(…)

Coisas vão se transformar
Para desaparecer

E eu pensando em ficar
A vida a te transcorrer

E eu pensando em passar
Pela vida com você…”

(Marisa Monte e Adriana Calcanhotto)

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