Eu divido com você, eu ligo para você, eu só digo isso para você.

Eu comi do prato de um estranho, eu entrei num Uber pela conta de um estranho enquanto subia desesperadamente aquela 9 de Julho, eu ouvi a história de amor de um estranho.

Estranho é eu não sentir nada disso estranho.

Claudio

Eu entrei naquele café cheia de pulseiras, um lenço no cabelo em estilo Simone de Beauvoir, meu batom e unhas vermelhos. E aquela vontade louca de tomar café quando sentimos que conquistamos o mundo. Pedi torta também. E detestei. Se tem algo que me deixa irritada é comer qualquer coisa que me desagrade. E foi quando Claudio chegou estabanado e morrendo de calor:

-Você se incomodaria se eu pedisse para ligarem o ventilador?

-Claro que não, fique à vontade.

Ele se sentou ao meu lado, olhou minha cara de desgosto e perguntou se a torta estava boa. Eu disse que não.

-Assim que meu prato chegar, divido com você.

-Desculpa, mas eu não posso aceitar, eu nem te conheço.

-Prazer, Claudio.

Eu ri. Por que não? O garçon que nos servia parou, olhou embasbacado. Será mesmo que aquela moça vai dividir o prato com o estranho?

-Claudio, você se importaria se eu usasse meus talheres?

E assim, comecei a partilhar com ele uma crepioca, a discutir o preço da banana orgânica na região de Pinheiros, as melhores rotas de bicicleta por lá. Descobrimos ser do mesmo signo. Dois Sagitarianos comendo do mesmo prato, relembrando os melhores lugares de Paris, contando coisas da vida. É lindo como os sagitarianos não guardam rancor, a gente simplesmente esquece. Somos capazes de transformar o absurdo num excelente café da tarde.

-Então fica assim. A gente se encontra por Pinheiros qualquer dia destes, pra dividir mais alguma comida.

Douglas

Chego cedo, desço a 9 de Julho. Talvez consiga um tempinho pro café no Mirante. O dia está lindo, nem tá tão quente aqui. Maravilha, tô pontual. Droga, esqueci o crachá. Tudo bem, só preciso dar o nome. Segundo andar? Beleza, Sem problemas. Beijo um conhecido aqui, abraço outro ali. Delícia de ar condicionado. Ok, agenda sendo cumprida com êxito. Mais 5 minutos e devem começar. Será que tem café na sala de espera? Odeio este piso, nunca dá pra vir de salto, faz barulho demais. Ah, putz. Sem café. Tudo bem. Termina aqui, peço um Uber, chego no Mirante e tomo aquele café maravilhoso. Ok, mais 2 minutos. Desligar o celular.Cadê meu celular? Ai, meu Deus! Perdi, roubaram? Fred, Fred! Liga pro meu celular? Desligado, claro que está desligado.

Como proceder? Pensa, respira, inspira e não pira…

-Moça, tá tudo bem?

-Não, meu celular sumiu e não faço ideia de onde possa estar…Eu preciso ir. Vou chamar um Uber pra chegar mais rápido…

Ai, meu Deus! Que Uber! Tô sem celular!

-Moça, eu posso chamar um Uber pra você, vai dar tudo certo. Você tem preferência de categoria?

-Claro que não, mas você nem me conhece.

-Prazer, Douglas! Eu jamais deixaria você subir a pé a avenida neste calor. Faz de conta que é presente. É presente. Vai ficar tudo bem.

1o minutos depois…

-Oi, Senhor do HB20! Este é  meu Uber!

-Desculpa senhorita, este Uber é para o Douglas.

-Sim, o Douglas me deu de presente.

-Douglas é um cara legal. Pra onde vamos?

-Recuperar meu celular!

10 minutos depois… Celular Salvo com sucesso.

Carlos

Carlos dirige um Uber. Me apanhou em frente ao Shopping Center 3, me deu uma garrafa dágua, me ofereceu balas que eu recusei. Carlos me orienta a nunca usar Uber partilhado de madrugada porque os caras entram bebaços. Ele sempre apanha uma garota de programa que usa aquela poção enlouquecedora de hidratante e perfume de rosas. Um dia, fez a corrida dela junto com a de alguns irmãos da igreja. Ficou inconformado de como os preceitos de Deus não foram respeitados ali. Ninguém amou a pecadora independente de seu pecado.

Carlos sobe a Rebouças com maestria e bem ali, no retorno para o shopping Eldorado, ele me conta de Diana. Como bom canceriano, me dirige as mais bonitas palavras de Amor que ouvi por estes tempos. Ele é de uma espécie em extinção que jamais se sentiu aprisionada no casamento. Confessa que gostava de chegar em casa e encontrar com ela, todos os dias. Todos os dias de Diana.

Deus no céu, Diana na terra. Assim que para ele se consolida o paraíso que se perdeu há três anos. Eles se separaram

-O que você acha, Nathalia?

Em uma semana de tantas coisas boas, de tanta gentileza espalhada pra mim, eu tinha de entregar pra ele aquilo que me foi entregue: Esperança.

-Liga pra ela. Fala tudo o que você sente. É difícil pra caramba fazer isso, eu mesma não consigo, mas se eu fosse uma “Diana na terra”, eu gostaria muito de saber que alguém me ama tanto assim.

Outro dia, minha amiga Lilyan me disse que a gente é feito herói, tem um monte de poderes. Não estes poderes burocráticos e exclusivos. Poder mesmo, esta coisa de mudar o dia de alguém com um sorriso, de transformar uma dor em aconchego com abraço, em sorrir pra um estranho pela rua. Poder de simplesmente dividir o prato e acalmar a alma de alguém ou mesmo chamar um Uber, numa gentileza extraordinária para ninguém ser pego pelo sol. Poder de escutar sobre o Amor, esta coisa danada que muda a gente pra sempre.

A gente tem poder de conexão, de religamento, de olhar.

Nada daquilo que não podemos explicar é estranho. Apenas divino.

Para Claudio, Douglas e Carlos.

 

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