Acordei com ressaca. Não me lembro da última vez em que isso aconteceu, mas também me esqueci que não se mistura vinho com cerveja enquanto se come Torcida de cebola com quiche lorraine e brigadeiros. Eu me esqueci de muita coisa neste tempo que passou.

Dizem que devemos sempre estar entre as pessoas que nos conheceram na juventude para que a gente nunca esqueça quem é. E de repente, estávamos todos juntos. Gente que eu conheci com 3 anos de idade e me despedi com 17. O mundo muda, a gente muda. Mentira, a gente está igualzinho.

O trato era “Só Nós”. Marido não entra, esposa tá de folga, filhos na casa da vó. Do portão pra dentro? 15 anos de saudades, de histórias, da gente. Aquela mesa farta de comida, a geladeira cheia de cerveja e a cada toque da campainha, mais uma personagem surgia nesta história.

Fotos, muitas fotos nestes quase dois meses de whatsapp e espalhadas pelo nosso encontro. Ninguém ficou velho. Não ali, naquela hora lembrando das viagens de formatura, das broncas intermináveis dos professores, dos primeiros amores. O tempo não passou não, a gente soube guardá-lo direitinho com tanta saudade.

Trouxeram barriga cheia de neném, perdas irreparáveis, casamentos felizes, separações dolorosas. Trouxeram batom vermelho e liberdade, playlist com Axé 2000 e o nome do filho que eu ainda não tive. Foi uma sessão de terapia incrível.

Quantos demônios exorcizados enquanto rebolávamos que  “E Diego possuído pelo Ritmo Ragatanga”, quanta sinceridade em cada “Gente, eu era menina também, tá? Você deviam ter olhado pra mim como uma e não como mais um cara da turma”. Quanto, tanto, muito.

A professora chegou e a gente gritou “Chamada, Chamada” e todo mundo caiu no choro.

Ante, após, até, com, contra, de, desde… Um coro se levantou para entoar as mais incríveis preposições da língua portuguesa enquanto desabafos eram ouvidos no canto da sala, dicas de como curar pedra no rim ali na pia, risadas intermináveis tomavam conta do lugar.

Estávamos de volta. Não sei bem para onde fomos, concordamos que tivemos algumas escolhas erradas, outras certas, enquanto se passava pão de alho com espeto de carne.No meio da festa alguém decidiu fazer churrasco. O importante é que estávamos ali, embriagados de cerveja e de vida.

Ninguém tinha hora pra voltar pra casa,  nem pai pra ir buscar. Ninguém estava com medo de Verdade ou Desafio porque já conhecemos bem a vida. E estamos jogando isso até hoje.

Este foi um daqueles dias memoráveis que já deixou saudades. Hoje mesmo, compartilhamos fotos daquilo em que estávamos trabalhando, uma amiga nossa postou um dedo amputado. Ficamos intrigados com todo o procedimento para que ele seja recolocado no lugar. Dependendo do tempo, ele nunca mais volta pra mão de que faz parte. Mas dedos são apenas pequenas partes de todo um corpo. E a gente é feito bem mais do que isso. Para alguns lugares, voltamos sem dor, com puro prazer e alegria.

Me pergunto se algum dia das nossas vidas realmente deixamos de estar ali. Tenho certeza de que não, mesmo mudando de cidade, de país, mesmo mudando por dentro e por fora. Professora Simone nos disse que ficou feliz em voltar pra esta nossa casa. Eu também.

Estava com saudades deles e de mim. Nestes tempos, questionei muito sobre mim mesma e eles me trouxeram as melhores lembranças desta minha pessoa. É bom voltar pra casa.

Para Marcela, Márcio, Juliana, Fabiane, Vivian, Paloma, Lígia, Rafael, Milly, Jeferson, Alexandre, Nathalie, Vânia, Diego, Renata, Sarah e Simone. Para Nath também.

Eles não sabem disso. Mas sei que daqui a pouco, um monte de mensagem vai surgir no meu telefone. E nossa foto atual também.

 

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