Outro dia um amigo me perguntou quando eu reparei que ele existia e não soube responder. Desculpa, mas é verdade. Ele apareceu em um período da minha vida em que eu simplesmente não olhava para ninguém. E não era por mal, era por dor. Eu estava ali só tentando achar um jeito de sobreviver. Assim, eu acabei por soterrar olhares, histórias de amor, oportunidades. Mas tem gente que nunca deixa de olhar pra gente e isso é lindo.

Dizem que quando você está entregue à adoção e tem mais de 7 anos suas chances de ser adotado se tornam quase nulas. Mas comigo não foi assim. Eu fui adotada com exatos 27 anos. Logo eu, aquela garotinha que por aqueles tempos era simplesmente impenetrável.

Minha mãe adotiva me escolheu por um amor que até hoje não entendo muito bem de que lugar veio. Talvez por isso as pessoas falem que tem filhos que nascem da barriga e outros do coração. Minha certidão de nascimento se deu numa padaria francesa ao sabor de um latte machiatto com croque monsieur e queijo brie, o meu favorito. Aos poucos ela me lia e segurava na minha mão por aquilo que para mim era apaixonante. Padarias e mercados são muito importantes na minha vida.

E assim foi se dando meu crescimento ao lado dela, regado a litros de café, colo quando o mundo desaba, uma infinidade de “Para, eu vou dar na sua cara!”. A esmaltes comprados na cor que ela sabe que eu gosto, bolachinhas belgas para se comer com chá. A mesma cabelereira para as duas,  empadinhas da casa Godinho, cinema no Reserva Cultural.

Perdi as contas de quantas vezes ela já me abraçou e tudo pareceu melhorar, de tantas outras que ela olhou firme pra mim e disse “Para de dar chilique agora!”. Mas é bonito que só de se ver como a gente se adotou, como por vezes ela me omite detalhes  porque acredita que tem que me dar o exemplo.

Hoje brigamos porque ontem ela me deu bronca dizendo para eu voltar e terminar direito uma história que comecei. No nosso almoço compartilhado do dia, vi que ela pulou um parágrafo inteiro da história dela e eu joguei bem no meio da cara esta peraltagem. Tem dias que eu viro a mãe. E a gente ri.

Sempre achei que filho adotivo era mais importante porque ele verdadeiramente foi escolhido com amor. E nesta minha história contada de nascimento cardíaco, posso dizer que quando se é adotado quase aos 30 não dá pra voltar atrás. Esta adoção é recíproca e é legal para caramba escolher quem serão seus pais.

No final de 2016, perguntei o que eu tinha feito de bom para as pessoas. Ela respondeu que eu tinha amadurecido. Coisa de mãe, pensou mais em mim do que pra ela.

Então assim, já brincando de ser adulta orgulho da mamaim, eu pensei que 2017 tinha de começar com um texto importante sobre uma pessoa eterna. Cada palavra é sobre ela, minha mãe Gabriela, tão grande e bonita que foi capaz de adotar alguém já crescido e tão cheio de memórias. Este tipo de coração é para poucos… E eu moro nele. Que sorte a minha!

Para Gabriela Borges. Ela não sabe disso, mas quando descobrir, vai brigar comigo por eu ter escrito tudo isso pra ela.

 

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