Para brincar ouvindo

“Não é assim que se brinca, filha!”, agitava as mãos a mãe enquanto ensinava sua filha como pilotar o pato de madeira.

“Eu sou o pato, eu sou o pato!”, gritava feliz a menina enquanto levava o pato para passear em cima da mesa, no chão, entre curvas e linhas retas. Ela era aquele pato e a brincadeira era dela. E eu estava ali, quase que bradando “Vitória, você brinca como você quiser, você é o pato e ninguém deve dizer como este bicho deve ser brincado além de você!.”

Ninguém deve se meter à besta com a brincadeira do outro e nem tem o direito de tentar ensinar qualquer um como pilotar o pato que se é. Naquele momento, eu também era o pato e brincava de sentimento com aquela menina de três anos que falava engraçado. Quando a gente cresce, quer dizer vira adulto, brincar vira sentir, porque é assim que gente grande se vira pra se relacionar com o mundo. Na brincadeira, o guri cria, se reinventa, sofre, vira herói, larga os brinquedos no chão e por fim, assim como o peão e o rei voltam pra caixa, o pato e a corda também. E ninguém deve dizer pra qualquer pessoa como sentir aquilo que toca ela.

Depois de 7 dias em que brinquei de Rocky Balboa com a vida, levando porrada feita de palavras que eu não estava pronta pra ler, de mentirinhas que eu tive de ouvir por duas vezes e que brincaram de bobinho comigo, e de telefone sem fio com requintes de crueldade e inquisição  por ser mulher, eu caí na lona, quase que desacordada, com os olhos inchados de choros e sem forças pra gritar pra minha Adrian. Mas sempre existe um Mickey que te chama pra Vitória. No meu caso, Vitória apareceu com um pato:

Tudo bem sentir dor, Rocky, tudo bem!!!!!

A menina do pato me trouxe uma raposa de pelúcia. Encontrou o bicho jogado no chão, o apanhou, fez carinho e o levou com ela em seu colo. Reparei no pato que pilotava junto e ele estava ao contrário: andava pra frente com o rosto virado para trás. Tudo bem este pato sentir saudades. Mas teve uma hora em que Vitória achou uma casinha pra raposa e a colocou lá dentro.

– Menina, será que você traz pra mim o bichinho pro meu filho brincar?

Vitória olhou intrigada aquela estranha. Como alguém podia lhe fazer aquele pedido, pedir emprestada sua preciosa raposa? Prontamente, ela pegou a pelúcia e a abraçou mais forte, a protegendo de todas as pessoas que só queriam brincar com ela e não amá-la. A menina continuou seu passeio. O pato já olhava para frente e parecia que a raposa sorria.

A mãe de Vitória se aproximou  e pediu para que a filha entregasse a raposa para aquela outra mulher. A menina imóvel. Mas eu também era o pato:

– Vitória, querida. Eu sei que você ainda está brincando com a raposa. Tudo bem ela ficar parada. Quando não puder mais brincar com ela, você a entrega, tudo bem?

A menina sorriu pra mim, deu duas voltas com seu pato feliz e escondeu a raposa de todos aqueles que não conseguiam entender que tudo o que ela queria era ter sua amiga protegida do mundo.

Naquele momento eu saí da lona e abracei minha raposa, mesmo sabendo que por estes dias ela não foi tão legal quanto eu esperava, mesmo sentindo falta dela e a culpando por algumas rodas que me colocaram sem eu ter pedido pra entrar e brincar.

A gente brinca como pode, como dá. Tem dias que a gente brinca no silêncio, na raiva, no choro entalado. Em outros ouvindo música e fazendo ciranda, mesmo que a raposa esteja guardada ou foi dar uma volta sem data de retorno. A gente brinca ao contrário do relógio e por vezes, a nossa brincadeira ainda não tá em tempo de acabar e brincamos no nosso próprio tic tac.

Hoje eu sou a menina que pilota o pato. Eu sou o pato amigo da raposa que trago no meu colo, mas em silêncio. E eu quero brincar do meu jeito, do nosso jeito.

Eu sou o pato, eu sou o pato!

 

Para Vitória. Eu espero que ela continue brincando com o coração.

E para a raposa, ela não sabe disso.

 

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