Quando eu nasci era Abril e eu fui parida depois de uma longa gestação de 3 anos. Por este tempo, estive sozinha, vivendo em um veleiro que seguia águas no Norte. E quando percebi, embarcada naquele mundo estático de geleiras nada acolhedoras, mas que para mim foram casa, o silêncio já não me cabia.

Logo eu, apaixonada por sentir o vento frio no rosto, acolhida em roupas quentes e amante do inverno. Eu acordei, não sei se na noite ou em uma manhã, e precisei seguir viagem. Eu tinha de voltar.

E foi assim, dia após dia, me descascando em roupas deixadas para trás, me despedindo de paisagens que não podia mais levar comigo, que minha vela se tornava errante e me guiava para aquela que era minha casa. Eu já podia avistar um pouco mais de sol, ondas gigantescas me benzendo em águas de mãe Iemanjá e aquela saudade batendo forte a cada titubear do casco no mar tal qual meu coração.

E quando avistei terra firme, já não tinha mais medo, apenas Amor. E ali, estava eu, ainda que vestida, nua. Parei por um tempo para respirar, para pensar no que diria para todos aqueles que persistiram em me esperar. Eu não sabia quem encontraria, o que a mim seria dito ou abraçado. Senti meus pés na areia e fui sem medo algum, ou decepção torta, encontrá-los.

Eu os vi, como se fosse a primeira vez em anos, como se nada tivesse mudado entre nós. Eu os enxerguei no silêncio compartilhado que diz tudo, nas mãos que seguraram as minhas para que eu pulasse muros, na generosidade em se respeitar o relógio que pulsa no outro, nos sotaques que fazem mala e preparam o jantar. Eu os olhava  na adoção tardia e cheia de Amor, naquilo que se conserta e não se joga fora, na mensagem mais bonita de aniversário, na caneca verde de café com leite, nas palavras duras que pedem que a gente reaja diante da vida, na dor igual, na espera por quem a gente torce pra voltar a viver.

Agora eu podia enxergar que eles estiveram o tempo todo comigo, naquele veleiro, preparando meu café, me vestindo de calor e de espera.

Quando eu nasci era Abril de 2016 e me lembro de sentir cheiro de laranja e cravo.

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Para Felipe, Raphael, Marcela, Érica, Lucia, José Carlos, Gabriela, Henrico, Fábio, Maricelma, Guilherme, Rogério, Priscila,Thais, Steve, Helena, Cecília, G., Júlia, André, curumins e Se Liga!

Obrigada por todas as vezes em que vocês me acolheram, me protegeram e não desistiram de mim. Obrigada por terem aceitado a minha ausência. Obrigada pela generosidade em aceitar as minhas desculpas e pela chance que me deram para que eu pudesse dar meu Amor pra vocês. Obrigada pelo Amor que me deram. Eu queria que vocês soubessem disso e aí eu pensei em escrever, pois esta é a forma mais bonita que eu encontrei para lidar com a vida. Vocês são as minhas personagens inesquecíveis que eu sempre ficarei feliz em levar no meu veleiro. Eu quero que saibam disso.

 

 

 

 

 

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