Este texto só se faz presente com esta música. Ouça

Eu devia ter uns oito anos quando a Bethânia gravou um disco com músicas do Roberto Carlos. O LP foi lançado em Maio, mês de aniversário do meu pai e este foi o único presente que ele nos pediu. Naquela época, música era sagrada e um disco preciosidade porque contava uma história. Este disco conta esta história.

Lembro de minha mãe correndo conosco de loja em loja em busca das canções do Roberto. Nós as encontramos e levamos Amor pra casa. Na minha memória de infância, naquele 3 de Maio, fazia um calor delicioso e as portas e janelas do nosso sobrado no Jardim da Saúde estavam abertas esperando os amigos chegarem. Na correria dos preparativos, minha mãe ligou a vitrola e a Bethânia começou a cantar. E eu fiquei completamente apaixonada pelas canções que tinham feito pra ela.

Os anos passaram e, na mudança pra casa nova, o disco se perdeu. Mas todas as vezes em que eu ouvia esta música perdida numa rádio, no carro de alguém, bethaniando por aí, eu me apaixonava novamente por ela. Na adolescência, comecei a escrever e numa destas vezes  em que a gente quer colocar um monte de letra pra fora, me lembrei da voz de Bethânia e prometi a mim mesma que um dia escreveria uma história pra esta música arrebatadora.

3 de Maio de 2017, promessa cumprida.

Hoje é o aniversário do meu pai e eu trago pra ele o disco perdido da Bethânia. Não aquele que eu reencontrei e comprei por R$ 5 no Papo, Pinga e Petisco e que está guardado com a minha vitrola. Mas o felizmente descoberto por aquela garotinha de cabelos enormes e olhos verdes gigantescos.

Enquanto a Bethânia canta, estamos juntos assistindo às lutas de Boxe de sábado à noite, roubando canetas que são nossas paixões, nos preparando para ir ao estádio, numa quarta-feira, ver o Palmeiras jogar. Neste momento, ele prende meus cabelos gigantes e o coloca na abertura do boné. Daqui a pouco, gritaremos gol e eu vou conhecer o Evair.

Mas a gente cresce, de um jeito ou de outro, a gente cresce. E neste contar de anos, eu também fui ganhando tamanho e histórias pra escrever. Em algumas delas, eu ouço esta música e ela se torna triste. Ela fala de saudade, de partida, daquilo que fica por mais que o que é importante tenha ido embora. Perdemos, os dois, este disco da Bethânia. Nos recusamos a procurá-lo por um bom tempo, colocamos as mãos nos ouvidos e negamos cada palavra desta música que quando a gente é adulto percebe que, por vezes, a alegria é triste.

Ano passado, me preparando pra conquistar o meu quarto continente do mundo, meu pai me ajudou a carregar a minha mochila. Havia um bom tempo que ele não se importava com a minha bagagem e nem com meus destinos. Mas naqueles dias, ele foi aparecendo nas portas abertas da minha casa nova e eu o convidei pra entrar. Foi no aeroporto, pouco depois de termos praguejado juntos por termos bebido o café com leite mais caro de nossas vidas, que eu olhei pra ele e o reencontrei naquele olhar que misturava orgulho, preocupação e amor. Por um momento, naquele portão de embarque para a África do Sul, eu posso jurar que eu ouvia a Bethânia cantando as canções que o meu pai havia feito pra mim.

Pai, meu presente deste Maio é o meu texto musicado para você feito com o  mesmo amor de quem te entrega o disco da Bethânia encontrado numa loja depois de tanto procurá-lo. Eu tenho 31 anos, talvez o dia esquente amanhã, mas as portas já estão abertas pra receber os amigos, pra receber nós dois.

Para o meu pai, ele não sabe disso.

 

 

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