“Você tá viajando sozinha? Tá fazendo o Comer Rezar e Amar ou o Sob o Sol da Toscana?”

A primeira vez que me fizeram esta pergunta na Itália eu não soube responder. Me senti na última saga de Gilmore Girls tentando decidir se minha jornada seria a do livro ou a do filme. Na hora eu disse um “Ah, uma mistura dos dois”.

Jornada, acho linda esta palavra. Aprendi a amá-la com os italianos. Boa Jornada, eles te desejam quando se despedem de você. Que você tenha uma história incrível para contar… É assim que este desejo soa pra mim.

Quando eu pisei na Itália, a atendente do balcão de informações olhou minha tatuagem de aviãozinho no braço e me mostrou a dela, idêntica. E começou a gritar “É um sinal, é um sinal!!!”. Neste momento, diante daquela estranha, eu soube que tinha chegado em casa e que ali eu faria uma belíssima jornada.

Italianos lindos preparando queijos, um concierge apaixonado que me recebeu no hotel e suspirava de amor todas as vezes que falava em Andrea Bocelli. Meu quarto, meu primeiro. Minúsculo, sob medida pra me acolher com escrivaninha, cama imperial pra pequenas mulheres de 1.57 e uma foto de Maria com menino Jesus pra abençoar o lugar. Fazer sexo com ela aqui seria estranho? Pensei.

Arranquei toda a minha roupa, entrei no banho e saí dele nua gritando “Eu tô livre, Eu Tô livre!!!!!” e eu ria, ria muito de felicidade, de liberdade depois de 7 dias escondida no Marrocos. Naquele dia, eu dormi pelada e feliz!

Aos poucos, eu ia descobrindo de onde veio meu quadril largo e meu nariz impecavelmente  italiano, meus excessos cheios de paixão. Claro que ser de Sagitário com ascendente em Áries contribui bastante pra toda explosão dentro de mim, mas eu sou Italiana e só lá eu consegui me traduzir.

Paixão pode ser descrita numa canção posta pra fora da alma ou numa bruschetta crocante com folhas frescas e azeite temperado. Pode ser traduzida por toda e infinita palavra cantada bem alta seja pra avisar que o café está na mesa ou que você discorda completamente da quantidade de parmegiano na pasta.

Vinho, limoncello, Bellini, Aperol, Caffè. Beber da Fontana di Trevi todos os desejos possíveis que uma moeda jogada por cima do ombro é capaz de trazer pra este mundo. Mangiare de todos os melhores sabores do mundo feito pela nonna ou pelo garoto emburrado do Gelatto que se desmonta quando educadamente você deseja uma boa jornada pra ele.

Buongiorno Principessa! Gritado alto não pelo Roberto Benigni, mas pelo staff da vinícola secular porque você simplesmente errou o endereço e chegou lá pela carona do Príncipe da Toscana. Assistir ao Coliseu se acender ensinando um ucraniano o que significa a palavra saudade e aprendendo que desejar muito alguém também tem sua palavra única na língua dele .

Gondolar por Veneza ao som de acordeões e de suspiros apaixonados mesmo que seja apenas por aquele instante, chorar nas vielas medievais de San Gimigni, olhar para o David e ter um encontro mágico com ele. Passear por portas e janelas que celebram o nascimento e a chegada de alguém.

Se saber porque se está lá. Se reconhecer dali numa sensação única de pertencimento se decifrando e se perdoando por cada gesto e amor que nasceu em você. Estar apaixonada.

Saber que de onde você vem as pessoas também são movidas pela paixão e nada, absolutamente nada do que elas façam é indiferente, seja o prato, seja o quadro, seja o Amor.

Sentir mesmo que sem nunca imaginar ou compreender a dor de uma Pietá. Fingir que a Giulietta existiu e se entregar aos encantos de uma casa imaginária mesmo que você considere esta uma péssima história de Amor. Preparar um jantar na varanda com queijo curado em caverna e suculentas uvas louvando ao deus Baco. Escolher sua máscara favorita, desfilar por Milão, provar todos os cafés que você encontrar pela frente. Achar que todo rapaz que se preze deveria ter uma aula de moda e de abordagens criativas com os italianos.

“Me deixa levar sua mala? Você não será uma mulher menos interessante por isso”, concordar com Rino, o homem da Sicília, que eu posso me permitir a certas gentilezas.

Encontrar Ana, a dançarina romena que foi minha acompanhante na estação de trem de Verona, que me deu um batom laranja incrível que não sai no beijo, que me deu uma história de sororidade, que me deu o nome pra este texto.

Batom laranja, esta é a história que eu estou atravessando desde a Itália que passa pelo meu corpo, pelos meus desejos, gostos e pela minha alma. Laranja, vivo, matte, duradouro. Batom de longa duração que combina com meu nariz italiano e todas as vezes que eu aceito que só consigo fazer as coisas movida por paixão. Batom que faz par com Ana e com a dançarina que eu também estou me tornando no Pole Dance, que faz moldura pra boca que fala alto e com um sotaque de Mooca. Que desce e marca o passo na forma que eu ando e devoro a vida.

Eu tô fazendo uma jornada alaranjada de um filme que eu mesma estou escrevendo e que me tem como personagem falando bem alto, sentindo tudo em exagero e provando cada prato que a vida anda me servindo. Uma boa jornada.

 

 

Anúncios