A última vez em que sonhei com a minha mãe, tínhamos acabado de voltar da Itália. Ela olhou pra mim e perguntou se estava tudo certo para o casamento da Mariana. Eu tinha certeza de que não era coisa da minha cabeça, pois só a minha mãe receberia uma oportunidade do Além e a usaria para palpitar sobre minha roupa de madrinha. E isso, este encontro rápido que anda terminando com um café,  diz muito mais do que qualquer música da Enya entoada por anjos numa relva d´A viagem  naquilo que chamam de céu.

Hoje me peguei pensando que meses se passaram e eu não falei do que foi minha viagem com ela. Contei num primeiro texto sobre batons laranjas, o Davi que tem veias de mármore, os sabores todos que traduzem meu sotaque da Mooca. Mas eu queria falar sobre cidades que transbordam e que só conseguimos desbravá-las com pés livres e barcos errantes.

Quando embarquei pra Itália eu não estava sozinha. Eu a tinha não só numa camiseta, como também nas sardas e cabelos, no rosto e na alma. Eu vim de uma mulher forte e transbordante que me levou até lá para que eu tivesse orgulho de mim mesma, da forma como  sinto e vejo o mundo.

Eu precisei voar até a Itália pra saber de onde eu vim e fazer as pazes com ela pela falta, pela saudade, por toda a proteção que ela me deu quando hoje se desfaz o tanto e por vezes sinto o vazio. Fui sozinha trilhar um roteiro que só cabia a mim.

Achei que eu a encontraria numa gôndola flutuante em que estivessem cantando Cantare e Volare e ôÔ… Mas não. No 14 de Julho deste ano, nos cinco anos completos de sua partida, eu a convidei para jantar sorrindo. Houve um tempo em que nesta mesma data eu entrava em desespero sozinha na China, eu chorava num museu em Viena, eu ouvia um silêncio na África do Sul. Tenho passado este dia longe de casa, em outros mundos. Mas desta vez foi diferente.

Entrei no Eataly, escolhi um Sauvignon Blanc gelado, um queijo curado numa caverna, uvas, cantuccinis, flores. Neste dia não saí à noite e voltei cedo pra preparar o jantar. Recolhi minhas calcinhas que ela odiaria ver penduradas numa varanda comunitária, ajeitei a mesa, servi o cardápio afetivo, dividi o silêncio que disse tanto com ela.

Ela chegou de camisola verde longa, a mesma que usava para dormir depois de dançar comigo quando criança. E ouvimos Cantare Volare ÔÔ… Na versão do Gipsy Kings, sem alardes, matando as nossas saudades daquilo que éramos e dividindo hoje aquilo que somos. Neste dia, ainda que dolorosa, lembrei de sua partida chorando e sorrindo.

Finalmente, juntas, na Itália.

Para minha mãe, minha Elisa, a melhor recordação que tenho da nossa viagem. Tenho certeza que ela sabe disso. Obrigada, minha Pietá.

 

 

 

 

Anúncios